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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Dr. Gaspar Antunes - 90 anos


Assinalam-se hoje noventa anos sobre o nascimento do Dr. José Alberto Gaspar Antunes. Já nos deixou há vinte e um anos, mas ainda continua muito presente para algumas pessoas.
Talvez alguns visitantes deste blogue o reconheçam. Ele, aqui, tinha quarenta e poucos anos de idade e estava em Cabo verde, prestes a partir para Angola.

Formado em Medicina em 1943, na Universidade de Coimbra, e depois de dois estágios em Lisboa e perto de Aveiro, foi trabalhar para Angola (1946). Esteve em Catete alguns anos; em 1952 integrou-se na Brigada da Pentamedinização (luta contra a doença do sono); em 1956, é promovido e colocado no Hospital da Cidade da Praia, na Ilha de Santiago – Cabo Verde. Além do Hospital, ainda era uma espécie de “médico ambulante” que se deslocava a outras zonas, onde faltava assistência médica.
Em Janeiro de 1960 regressa a Angola, desta vez, para Duque de Bragança, onde esteve cerca de um ano, principalmente, a tratar situações de Lepra.

(É de lembrar que a Guerra Colonial em Angola, “rebentou” em Março de 1960.)

Depois de sair de Duque de Bragança, esteve dois anos em Quibaxe, onde não só assistia a população, como também o Exército Português, pois não tinha médicos. De Quibaxe ainda seguiu para Vila Nova de Seles, tendo, em 1965, ido para Sá da Bandeira, onde foi Director do Hospital.

Sei que, quando ele, a mulher e a filha tinham chegado a Sá da Bandeira, iam à procura do Hospital. Ele encostou o carro ao passeio, e perguntou a um rapaz (negro) que ia a passar, onde se situava. O rapaz perguntou: Qual deles? O dos pretos, ou o dos brancos? Ao que me parece, a reacção do Dr. Antunes não foi lá muito boa. Parece que ainda ficou mais branco...
Como Director que era, acabou com essa separação e fez um só Hospital para todas as pessoas de todas as raças, de modo a serem tratados de igual forma. Tal era o espírito de algumas pessoas, que ainda houve quem ficasse contra ele.

Voltou para Portugal em 1966 e ainda exerceu alguns anos.

Conheci-o já em 1979. Foi grande amigo do meu avô, e tornou-se também meu amigo. Era uma pessoa muito especial! Tinha sempre uma história para contar. Andava sempre de um lado para o outro, tinha sempre coisas para fazer, era muito aberto aos tempos mais modernos, muito liberal. Recordo-o muito minucioso, nas mais diversas áreas, muito atento às pessoas, a tudo o que o rodeava. Muito inteligente.

Lembro-me de ele contar situações em que tinha de operar logo ali onde o doente estivesse, sem o mínimo de condições e, mesmo assim, tinha êxito nas cirurgias. Uma vez, ouvi-o comentar qualquer coisa como: “se hoje fosse chamado para operar um doente num Hospital, com tanta tecnologia de equipamentos, aparelhos e todas as condições que há actualmente, não era capaz de o fazer”.

Enfim, faz hoje 90 anos que nasceu, na Figueira da Foz, um grande Homem.

4 comentários:

Anónimo disse...

Corvo:
Sabia que te iria encontrar agora. A morte do Doutor, foi o teu primeiro desgosto e, sei por experiência que, o primeiro desgosto é horrivel. Eras bem pequeno ainda, mas foi uma pessoa que te marcou. Aliás, marcava toda a gente. Bom conversador, compreensivo, amigo de ajudar. Também tenho saudades dele. Tinha-me prometido que, quando o meu Pai morresse, me poria a dormir, até tudo acabar. Não pode cumprir a promessa, porque morreu primeiro.
Dá por mim, um beijo à Ílidia. Hoje, pensarei nele.
Um beijo grande da
Mãe

Anónimo disse...

Vasco,
Para mim era e é o meu Padrinho, a quem, como sabes, chamava Doc.
Foi um homem notável, que não deixou ninguém indiferente.
Nasceu em berço de ouro, numa família abastada e conceituada na Figueira da Foz.
No entanto, lidou sempre com o seu semelhante de igual para igual, sem distinções sociais, económicas, raciais ou quaisquer outras.
Cito aqui uma das suas máximas: "Bater nos que estão abaixo não é habilidade. A habilidade está em bater para cima, porque para baixo a lei da gravidade ajuda". Não tolerava nem admitia qualquer tipo de injustiça.
Foi a mente mais aberta que já conheci. Tinha uma sensibilidade invulgar e um sentido de humor requintado.
Vivia a angústia de não ter sido bom, o suficiente. Acreditava que poderia ter sido melhor e feito muito mais na vida.
Fez de tudo um pouco e da melhor forma que é possível a um ser humano fazer.
Viveu a vida com intensidade. Era um espírito livre, totalmente aberto a tudo e a todos, sem restrições. Com ele não conheciamos a palavra "monotonia. Dizia sempre: "Tudo na vida se pode fazer desde que se faça com elegância". E ele tudo fazia com elegância, graciosidade e generosidade.
Deixou uma saudade imensa e continua presente na nossa memória e sobretudo no nosso coração.
A ti, querido Vasco, agradeço a amizade que sempre lhe dedicaste.
Estaremos juntos mais logo.
Até lá um beijo amigo
Nemy

Manuela disse...

Ler o que foi escrito anteriormente, deixa-me emocionada e com uma saudade imensa dum HOMEM que não passou indiferente a quem com ele conviveu. Para mim foi como um segundo PAI e é assim nesse papel que o recordo.
Nunca esquecerei os nossos convivios, os seus conselhos, a sua amizade sincera e profunda, tendo dele as melhores lembranças.
Acredito que embora noutra dimensão ele não nos abandonou.
Um abraço e um beijo ao meu "Doc"
Nelinha

Maria Carla Antunes disse...

Nunca esquecerei as tuas brincadeiras, as sessões de palhaçada e cócegas, os bons momentos que passamos, meu querido tio. Tu e o meu querido pai, Carlos Luís Gaspar Antunes, também médico, foram homens que lutaram sempre pela justiça e direitos, sobretudo dos mais desfavorecidos. Foram homens de grande generosidade e com um coração extremamente bondoso. Ainda hoje são uma referência para mim e continuarão a ser. Orgulho-me de pertencer à família Gaspar Antunes.
Um beijo saudoso
Maria Carla